Pequenas histórias para ler devagar.

Linha de giz
No chão do quarto, uma linha de fita crepe separava o que era meu do que era dele.
O lado esquerdo era azul: coleção de revistas, caneca com lápis e um atlas infantil.
O direito, acanhado, com uma mochila encostada e um travesseiro amarelado.
A fronteira era um acordo. Era um pacto instituído.
Na infância, o quarto era o nosso planeta, e desenhamos com giz a margem do mundo.
Dividíamos o abajur, os pesadelos e as sombras noturnas .
Fazíamos escambo com figurinhas e bolas de gude. E chantagens. Valia caro guardar os segredos do outro.
Às vezes, cruzávamos a linha de propósito, só para ver o outro fingir-se ultrajado.
Depois, veio a adolescência. Ele trancou o armário.
Eu tranquei minhas respostas e opiniões.
A linha sumiu do chão, mas cresceu nas retinas.
Nos cumprimentávamos por cima do abismo.
Morávamos na mesma casa, em países vizinhos.
Anos depois, ele fez as malas.
Deixou o lado dele vazio e uma foto entre as páginas do meu livro de geografia. No verso, um revés:
“Se quiser me encontrar, siga sempre reto pela linha do Equador. Ou pelo coração.”
Desde então, corro sem rumo. Ultrapasso os limites. Procuro-o em outros olhares. Vejo-o em tudo, não o encontrando jamais.
Guardei a saudade e o orgulho. Choro sua lembrança e o que ficou por dizer.
A fronteira estava tão próxima de nós; a um abraço de distância. A um sorriso, um aceno.
Minhas luas, meus sóis, estrelas e planetas dispersaram-se. Nunca mais couberam em quatro paredes.

Nem Mais, Nem Menos
Era a última manhã de outubro nos idos de 1942; no dia seguinte, o dinheiro mudaria de nome. Em Arraial das Onças, vivia um gaiato chamado Celestino, sujeito ladino, conhecido por suas habilidades para comerciar. Sendo venda ou escambo, a conversa era com ele mesmo. Nunca perdia um bom negócio e sempre levava vantagem sobre a outra parte. Bastava o indivíduo piscar e lá ia a pobre, boa e inocente alma com um sorriso no rosto, uma ilusão na alma e algumas moedas a menos no bolso.
Presunçoso, Celestino ria-se de suas vítimas e se gabava dos talentos que tinha.
— Tudo o que alguém quiser comprar, tenho para vender. E se eu não tiver, arrumo quem tenha. De mãos vazias, ninguém sai!
Mas saía. E como saía. Não só com as mãos vazias, mas iam-se também os anéis e até os dedos, se bobeassem. Quando o desavisado achava que tinha ganhado, era porque havia empatado; se achasse que tinha empatado, havia perdido; e, se por infelicidade achasse que tinha perdido, era porque havia perdido mesmo… e muito.
Celestino conseguia vender um caixão para dois defuntos. Diziam as más línguas que ele entregaria a própria mãe, a depender do lucro que teria, tamanha era a fama que carregava.
Ainda assim, se alguém virasse Celestino de ponta cabeça, não encontraria um conto de réis sequer. Tudo o que ganhava, gastava. Um perdulário compulsivo.
Como a vida é justa, e todos sobre a terra têm os dias bons e os dias ruins, naquela mesma manhã, Celestino foi procurado por um ourives que tinha urgência em comprar um quilo de ouro. Com passagem comprada para partir da cidade naquela mesma noite, o ourives estava disposto a pagar o valor que fosse, sem regatear, caso Celestino conseguisse atender à sua demanda.
— Pago o preço do Banco do Brasil, com trinta por cento a mais!
Celestino, pessoa informada que era, fez logo a conta:
— Um quilo de ouro custa trezentos e vinte mil réis; mais trinta por cento, dá um total de quatrocentos e dezesseis mil réis.
Seus olhos brilharam! Nunca havia lidado com um valor tão alto. Avidamente, afirmou ao ourives que, sem demora, lhe entregaria aquele peso em ouro. Era só o tempo de ir buscar.
Cobiçoso, contactou todos os fornecedores de ouro que conhecia, honestos e patifes. Correndo de boca em boca, a história chegou aos ouvidos de Domênico, um sitiante local que também tinha seus talentos e espertezas. Havendo encontrado ouro em suas terras, Domênico acostumou-se a viver quieto e calado, tudo fazendo para não chamar para si a atenção dos curiosos e dos ladrões. Chegava ao ponto de travestir-se de tipos exóticos para não ser reconhecido, quando necessitava mercadejar seu ouro sigiloso.
Considerando a necessidade de Celestino como uma boa oportunidade de fazer dinheiro, Domênico não perdeu tempo. Orgulhoso da própria astúcia, colocou barba postiça, óculos escuros e chapéu de couro. Ficou mesmo inidentificável. Santo ele não era; bobo, muito menos.
Fingindo ser um forasteiro desinteressado, partiu para a cidade, com o claro objetivo de ter com Celestino um encontro que parecesse bem casual. Após esgueirar-se pela rua do comércio, avistou-o no mercado, às voltas com outros negociantes, propondo e recebendo propostas. Sorrateiramente, aproximou-se do pequeno grupo como quem nada queria e ficou escutando a conversação.
Depois de alguns minutos, arriscou:
— Então, o senhor quer comprar ouro?
— Sim, é verdade, e tenho pressa. Você conhece quem vende?
— De quantos gramas precisa?
— Preciso de um quilo.
— Vixe! É muita coisa! Mas eu tenho quem arrume isso e vou ajudar o senhor.
— Ora, vivas! Quanto vai custar?
Domênico não titubeou e deu logo o valor:
— Trezentos e vinte mil réis. Nem mais, nem menos. É o preço praticado.
Celestino, bom de conta e melhor ainda de malandragem, foi esticando a conversa para ver se melhorava a proposta. Ganancioso, estudou a aparência simplória de Domênico e concluiu que a negociação terminaria facilmente a seu favor. Em tom choroso, falava sobre a carestia das coisas, a falta de dinheiro do povo, o descaso do governo…
A cada argumento apelativo de Celestino para baixar o preço, sem alterar a voz, Domênico respondia:
— Nem mais, nem menos!
Em uma cartada ousada, Celestino resolveu fingir que não queria mais comprar. Disse ser uma pena, e coisa e tal, e apertou a mão de Domênico, em um cumprimento de despedida. Domênico correspondeu ao gesto, puxou um banco e sentou-se.
Sentindo-se desafiado, Celestino aprumou-se e, cheio de soberba, ganhou a rua, seguindo pela calçada, até dobrar a esquina. Esperou um pouco e retornou, fazendo cena, como quem havia errado o caminho. Mas, Domênico não estava mais onde o havia deixado.
Desesperado, deu uma volta pelo quarteirão e perguntou aos passantes se haviam visto um homem de barba, com óculos escuros e chapéu. Ninguém viu. Então, com uma expressão vaga no olhar, Celestino caminhou até o banquinho deixado por Domênico e sentou-se, perdido em seus pensamentos.
No final da tarde, o ourives voltou, cobrando o ouro prometido. Sem a mercadoria para apresentar ao cliente, Celestino pediu mais um dia de prazo. Tudo em vão. A humilhação era latente e, à sua volta, fregueses e amigos o olhavam com desdém. Estava derrotado.
Nesse momento, arrastando as botas no assoalho, Domênico adentrou o armazém, limpando os dentes com um palito e ostentando ares de pouco-caso. Debaixo do braço, levava um lingote de ouro mal embrulhado em um pedaço de papel pardo. Sem se fazer de rogado, disse ao ourives:
— Trouxe aqui esse lingote de um quilo, que não foi nada fácil conseguir. Se o senhor ainda tiver interesse, posso vender a quinhentos e quarenta mil réis. Nem mais, nem menos.
Sem discutir, o ourives colocou nota sobre nota nas mãos de Domênico. Pouco depois, pegou o trem na estação e deixou o Arraial das Onças, agradecendo efusivamente pelo bom negócio que havia feito.
Domênico ria-se de satisfação, contando e recontando as cédulas velhas e amassadas que acabara de receber. Depois, desapareceu. Nunca mais se soube daquele forasteiro de barbas, óculos escuros e chapéu de couro.
Celestino assistiu estupefato à vitória do seu concorrente, que, debaixo das suas barbas, armou e concluiu uma velhacaria esplêndida, digna dos mestres trapaceiros. Por remédio para seu desconsolo, pediu uma garrafa de aguardente ao dono do armazém e bebeu até cair… literalmente. Dormiu no chão frio do estabelecimento, sem aparecer uma alma piedosa para recolhê-lo.
Ao acordar na manhã seguinte, localizou-se no tempo e no espaço e lembrou-se dos ocorridos no dia anterior. Desejando esquecer, decidiu que terminaria de afogar seu fracasso no álcool. Sem dinheiro e sem crédito, estava prestes a ser expulso do armazém, quando um senhor desconhecido se aproximou, oferecendo-se para pagar-lhe um café. Assim que o copo com o líquido fumegante foi colocado sobre o balcão, o estranho perguntou ao dono do armazém:
— Quanto devo pelo café?
— Trinta e dois centavos!
Celestino ouviu “trinta e dois” e sentiu a garganta fechar e os olhos esbugalhar; engasgou-se, tossiu, cuspiu e resfolegou. Estaria ainda dormindo… ou estava louco? Na sua cabeça, os números e as cifras sempre vinham puxando carroças de mil-réis.
O dia já ia alto, mas ele ainda não havia lido os jornais que anunciavam o nome da nova moeda: um cruzeiro valia mil réis. E, por umas horas, Celestino ficou sem língua para o dinheiro; e a esperteza perdera a unidade de medida.
Então, olhou para o copo, depois para o balcão, depois para a rua, e percebeu, quase ofendido, que o mundo mudara enquanto ele se refazia da bebedice. Na véspera, quis comprar um quilo de ouro; no dia seguinte, tremia diante de um café.
E foi assim que Celestino aprendeu que o ridículo cobra juros mais altos do que qualquer trapaceiro.

O Trem
O velho chega sempre antes de o sol nascer. Senta no banco da estação, acende o cigarro, ajeita o chapéu. Ninguém mais passa por ali. Nem trem. Mas ele espera.
A estação tem o telhado quebrado, vidros faltando, trilhos cobertos de mato. O letreiro caiu. Só restou uma letra pendurada, balançando ao vento. Mas ele conhece o nome do lugar. Repete-o baixinho, toda manhã, lendo o faltante do letreiro.
O velho traz sempre um pão na mesma sacola, um pedaço de queijo e uma garrafa com café morno. Come devagar. Bebe pouco. Depois, olha para o fim da linha. Fica ali, quieto. Às vezes, fecha os olhos e cochila. Depois, desperta ligeiramente assustado, olha ao redor e se firma na bengala, voltando ao sossego.
Os que ainda lembram da juventude que um dia ele exibiu dizem que ele perdeu a lucidez, mas ninguém sabe a história toda.
Dizem que o trem parou de passar há uns trinta anos. O velho veio na última viagem. Veio por amor. Havia prometido a uma mulher que voltaria para buscá-la. Ela esperou, mas ele não chegou a tempo. Quando voltou, a casa estava fechada, o quintal seco, e os muros baixos não podiam esconder o abandono. O velho perguntou por ela, mas ninguém soube dizer. Ou ninguém quis. Fato é que ninguém lhe deu importância.
Desde então, ele se estabeleceu ali. Comprou uma casa de madeira perto dos trilhos, pequena, úmida, de telha velha. Plantou um pé de figo e outro de alecrim. Não fala com os vizinhos. Vai à feira uma vez por semana e compra sempre as mesmas coisas. Quando chove, fica na varanda. Quando o sol está bom, caminha até a estação, senta e espera.
Nunca contou a ninguém pelo que espera. Uma vez, numa conversa com outro velho que costumava lhe pedir água no portão, disse: “Às vezes, as pessoas voltam para nós. Mas temos que estar no lugar certo, na hora certa.”
Depois disso, o velho que pedia água não voltou mais. O trem, tampouco.
Contudo, o nosso velho continua. Os dias se vão. As estações mudam. A calçada esverdeia-se de limo. O banco da estação apodrece. Mas toda manhã ele está lá. Com o mesmo olhar atravessado, fixo na curva onde o trem promete despontar.
Um dia, alguém vai passar por ali e perguntar quem era ele. Alguém vai dizer que era um velho meio louco, que falava pouco, que esperava um trem que não existe. Vão rir dele e de suas crenças.
Porém, haverá um vazio depois disso. Um vazio que vai amargar na boca dos maledicentes.
Afinal, todos temos um alguém que gostaríamos de poder esperar, mas que sabemos que jamais voltará.

As Duas Serpentes
Há milhares de anos, o calor chamejante era a única testemunha da aurora da Terra. Sob as pedras do primeiro deserto, somente serpentes e escorpiões rastejavam, destilando maldade. Neles não havia doçura, bondade ou fraternidade.
Em um dia perdido no infinito do tempo, um ovo de serpente prestes a eclodir descansava na fresta de uma rocha. Seu ciclo de maturação se cumprira, e dentro dele a vida insistia em vir à luz. Mas esse ovo continha uma anomalia: nele, duas serpentes foram geradas.
Em tudo eram idênticas: tamanho, forma, cores e maldade. Tanto veneno tinha uma quanto a outra. Nos gumes da boca, ostentavam a mesma medida de morte. Irmãs, mas incapazes de se tolerar, brigavam desde que o primeiro vestígio de peçonha se formou em suas glândulas, ainda no claustro do ovo.
Por serem irmãs, o veneno não as matava; apenas causava dor. E, apesar da ineficácia da luta, persistiam, num duelo sem trégua que incendiava a escuridão do ovo.
O ovo, exausto de tanto combate, começou a rachar. A casca abriu-se em veios. De dentro, surgiram as duas serpentes, armadas com dentes que reluziam sob o sol causticante. A luz, no entanto, não as pacificou. Não se deram trégua. O primeiro ar que respiraram estava impregnado de discórdia. E assim, o mundo recebeu suas filhas gêmeas: iguais, embora inimigas.
Com tanto veneno inoculado em seus corpos delgados, as serpentes nasceram pequenas, murchas e frágeis. Mas também por essa razão, a ira que exalavam era desmedida. Dois seres esqueléticos e tristes, de olhos faiscantes e sibilo de ódio.
Rastejavam o ventre na areia quente do deserto e, a cada movimento, deixavam atrás de si um rastro ardente, marca da cólera de seu nascimento. Onde passavam, o deserto se agitava: escorpiões se enterravam, lagartos se escondiam, e a areia se entregava ao vento.
Quando se cumpriu o tempo de suas existências peçonhentas, voltaram à fenda da rocha, ao ventre escuro onde haviam recebido forma. Ali se entrelaçaram novamente. As presas se cravaram nas escamas, e os pescoços torceram em ângulos impossíveis. As bocas se abriram em abismos negros.
Malevolentes, enroscaram-se em círculos cada vez mais justos, até que seus corpos viraram prisão. As mandíbulas rangiam, famintas, e o veneno escorria, inútil, contra a irmã. No auge do furor, avançaram uma dentro da outra. Engoliram-se, ventre contra ventre. Não podiam respirar. As mandíbulas se cravaram nas gargantas, os ventres inflaram, e o engasgo lhes tirou a força.
Dias depois, morreram assim: uma no ventre da outra, enlaçadas no abraço da morte.
Então, a fenda se fechou. A rocha moveu-se sobre elas, sepultando-as. O tempo as esmagou. A carne se dissolveu, os ossos misturaram-se ao pó, e o veneno espalhou-se pela areia.
Durante muitos anos, as almas das irmãs vagaram pelos céus do deserto, lançando relâmpagos e bramando trovões. Um dia, desceram em forma de chuva, e a terra as petrificou em um único bloco de ódio e fúria.
Desde aquele tempo, todas as serpentes são filhas desse sedimento. Herdeiras remotas da cólera primordial, trazem nos dentes o gosto da morte, e no sibilo, a prontidão feroz do combate.

Cigarras
Às vezes sinto saudade sem saber de quem. É um vazio morno no peito, como o de fim de tarde, quando o sol se despede atrás das montanhas e as cigarras cantam em coro.
Nessas horas, penso no meu pai. Não tenho muitas histórias com ele, mas lembro da maneira como ele me olhava quando pensava que eu não estava vendo. Ele sempre dizia que eu era “demais”. Mas dizia isso para as outras pessoas, não para mim. E isso me confundia. Ele cheirava a cigarro e tinta de jornal, um cheiro tão forte quanto sua presença. Eu o amava e amava saber que ele gostava de mim, com um afeto quase secreto. Ele ria das coisas que eu falava, me achava inteligente e espirituosa. Ria daquele jeito dele, sacudindo os ombros, me olhando com os olhinhos brilhando de orgulho e amor. Depois, sumia. Ia pelo mundo. Eu sofria, pois não sabia onde ele estava, se estava precisando de ajuda.
Penso também na minha avó, que me ensinou os modos de ser menina. A dobrar a roupa direito, a pôr perfume nos pulsos e atrás da orelha, a sentar com as pernas juntas. Para ela, o mundo era mais gentil com quem sabia essas coisas. Às vezes, me deixava escovar os cabelos dela. Eram grisalhos e longos, com cheiro de sabão de coco. Ela dizia que os cabelos contam a história de uma mulher.
Foi com ela que aprendi a me fazer de boba para seguir em frente. Para não ofender, para não chamar atenção, para manter meu lugar. Segundo ela, a mulher sábia não precisa dizer que é esperta. E eu me fiz esperta secretamente, inconfessa, do mesmo tecido dos afetos do meu pai.
A menina que eu era acreditava nos ensinamentos da avó. Decorava provérbios e os tomava por sabedoria. Acreditava que as pessoas são boas, que o amor é simples, e que quem ama não abandona.
Daquela menina tenho mais saudade do que de tudo. Não sei bem quando ela partiu. Talvez no dia em que meu pai foi embora. Ou quando minha avó me enredou em seus ciúmes, e meu pai se entristeceu comigo por isso.
Hoje, ando com os sentimentos dobrados, como as roupas que minha avó me ensinou a guardar. Procuro andar direito, escolher as palavras certas e sorrir serena para não preocupar ninguém. Mas às vezes, deixo a saudade me visitar.
E mesmo sabendo que não se volta à infância, fecho os olhos só para ouvir, dentro de mim, a voz daquela menina. Tão melancólica quanto as cigarras, ela ainda canta. E, por um instante, volto a ser a neta. Volto a ser filha. Volto a sentir o calor do olhar do meu pai.